A Vizinha de Cima

Ela entra e sai. Diz «Bom dia», diz «Boa noite». As palavras maiores guarda-as para dentro desta porta.

Sunday, July 17, 2005

Cega em terra de surdos

Senti-me uma perfeita estranha. Inútil. Na entrada do Rivoli, eu era incapacitada. À minha volta gestos ocupavam o lugar das palavras, preenchiam o silêncio. Sorrisos trocados, conversa afiada. E eu sem entender um dedo, uma mão.

Sentada nas escadas, estava pequenina, enrolada sobre mim própria. Muda perante tanta comunicação que me escapava. Se, naquele momento, um estrangeiro viesse ter comigo seria perfeitamente capaz de lhe dizer "yes", "oui" ou "si". Mas se um dos conferencistas daquele dia no Teatro Municipal me dirigisse uma palavra, eu não saberia descodificá-la.

Como é possível conseguir entender um turista de outro país e não entender um português só porque ele é surdo?
Como é possível ter estudado, obrigatoriamente, línguas estrangeiras na escola durante tantos anos e nunca me terem ensinado, obrigatoriamente, a falar esta outra língua que deveria ser a minha também?

Tenho procurado aulas de linguagem gestual. Não encontro com facilidade. As poucas que há ou são caras ou a horas impraticáveis para mim. Já espero por uma oportunidade para aprender esta forma de comunicar há cerca de um ano. Mas não desisto.

Porque quero saber dizer "sim", "olá", indicar um caminho ou dizer as horas a um surdo, tal como sei comunicar com um americano, francês ou espanhol. Porque se não o aprender serei sempre eu a "diferente" e não eles, os surdos. Para eles, continuarei a ser cega. Enquanto não souber ler-lhes as palavras que guardam nas mãos.

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